20 de julho de 2012

Segunda edição do Unicom em 2012

Está disponível na internet a segunda edição do Unicom de 2012. Não há texto meu publicado, mas eu fui o responsável pelo projeto gráfico e a diagramação. Espero que gostem. Há coisas bem curiosas publicadas nele.


18 de julho de 2012

Pessoas que conheci, alguém que um dia fui

(Conto publicado em Jornal Unicom - Maio de 2012)

A janela está fechada, mas posso ver por entre as frestas que o sol ainda não despertou. A noite é silenciosa no terceiro andar desse prédio. Cinco e dez, anuncia o relógio de pulso que deixara ao lado da cama. O sono me abandonou. Teria a enfermeira aplicado a dose correta do medicamento?


Adriana. Os pensamentos talvez sejam os únicos a não me deixarem. Eu sinto seu doce perfume, vislumbro seus belos olhos castanhos e consigo até mesmo ouvir a sua voz. Voz rouca, dos cigarros que fumava compulsivamente. As lembranças me fazem pensar. Por que não havíamos ficado juntos?

Talvez fosse a nossa imaturidade. Embora, é verdade, Adriana problematizasse o relacionamento com o meu temperamento. “Você nasceu com a lua em sagitário, Marcos”. Eu fingia que aquilo fazia algum sentido e sentenciava a discussão com um beijo. Até mesmo a astrologia faz sentido quando se ama. Ainda é escuro na rua. Por que havíamos terminado? Creio que um dia ela se cansara do meu silêncio. Éramos bons amantes, é verdade, mas não nos entendíamos. “Você não compreende, Marcos, mas você é meu inferno astral. Nunca poderia dar certo”. Outras amantes surgiram, mas nenhuma me fez esquecer aquele belo sorriso. E aquela voz, rouca de cigarros.

Minhas pernas doem. Não virá a enfermeira fornecer os medicamentos da manhã? Alguns sons surgem na rua, ainda tímidos, mas já deixam o ambiente um pouco mais afável. O quarto é mais alegre durante o dia, quando é possível ouvir os sons da cidade, com seus carros e caminhares apressados das pessoas.

Talvez eu pudesse falar com Flávio quando o dia chegasse, eu penso. Mas ele não iria atender às minhas ligações. O aparelho móvel iria mostrar quem ligava e ele fingiria estar ocupado, atento aos cálculos que dispunham de toda a sua atenção. Que assuntos ele poderia ter para falar com seu velho pai? Não costumávamos nos falar, afinal.

Durante muito tempo eu havia me esquivado de minhas responsabilidades paternais. Coisas que, afinal, eram fatigantes quando o pequeno Flávio requeria de minha atenção. Estava muito mais interessado em Sônia, nossa jovem e bela vizinha. Como eram belas aquelas fartas coxas. Tão linda ficava em seu vestido azul, à francesa, roubando para si os olhares dos homens da rua. E de algumas mulheres também, é verdade.

Também havia Carmen, a doméstica. Mas com ela os momentos eram mais raros. Afinal, não era fácil manter a minha esposa longe de casa. “Miriam, você não vai ao chá na casa de Margaret?”. E Miriam se produzia para o encontro na casa das amigas, feliz por ter um marido tão compreensível. “Cuide bem dos meus meninos”, advertia Carmen. E ela cuidava, de fato.

Um dia cansou de fingir que não sabia das Sônias, das Carmens e de todas as outras mulheres que despertavam a atenção do marido. Me deixou, dizendo que havia encontrado finalmente um amor. Eu também havia encontrado, mas pensei que seria maldade demais falar de Adriana em um dos raros momentos em que ela expunha seus sentimentos.

O pequeno Flávio viveu com a mãe, é claro. E pouco contato tivemos durante o seu crescimento. Lembro de ter ido a sua festa de formatura. Não poderia esquecer a sua linda professora de Português. “Sou Marcos Vinícius”, me apresentei. Ela ficou encantada ao conhecer um jornalista tão proeminente. Bons tempos.

O dia começou, posso ver por entre as frestas da janela. Talvez eu ligue para o Flávio. Na minha idade, não há de se temer os riscos. Talvez ele queira se despedir do velho pai. Talvez até Miriam venha me ver hoje. Ou Adriana. Daqui a pouco poderei trocar algumas palavras com a enfermeira. Ela teria aplicado a dose correta do medicamento? Minhas pernas doem.

Não faça amigos bebendo leite

( Crônica publicada em Jornal O Açoriano - 17 de maio de 2013) Há muito mais por trás das notícias da adulteração de leite do que o fa...